terça-feira, 8 de novembro de 2016

Cidades planejadas no século XXI




Cidades planejadas não são nenhuma novidade na história da humanidade, de fato o planejamento urbano remonta incluso as primeiras civilizações urbanas, do vale do Rio Indu a Mesopotâmia, da antiguidade clássica ao renascimento, o século XX e seu ideário modernista, no entanto, nos deixou um grande legado de cidades planejadas ao redor do mundo, de diferentes tamanhos e finalidades, das famosas capitais monumentais construídas com finalidades administrativas tais como Canberra, Brasília, Chandigarh, Astana ou Islamabad, até as incontáveis pequenas cidades regionais, ou company towns, espalhadas por todo o planeta, todas nos deixaram valiosas lições acerca do urbanismo e do modo de como as cidades crescem e se desenvolvem.
Porém para quem pensa que a tentativa de construir cidades do zero, baseadas em projetos urbanos ancorados nas mais diversas utopias urbanas é uma coisa do passado, que ficou apenas nas experiências do século passado, pode ter uma grande surpresa ao ver quantidade e a dimensão das novas cidades planejadas já no século XXI, muitas, entretanto não apresentam nada de novo, na realidade a imensa maioria ainda está presa nas teorias modernistas do século anterior. Confira abaixo a lista de alguns dos principais projetos em andamento na atualidade:

Masdar City - Emirados Árabes Unidos

Imagem: http://svenworld.com/ 


A Cidade de Masdar existe como um projeto de desenvolvimento urbano executado pela companhia de energia renovável Masdar, que direcionou 15 bilhões de dólares para torná-la a cidade mais sustentável do planeta. Mas a Cidade de Masdar certamente não está livre de críticas. Na primeira abordagem, o desenvolvimento concentrado, localizado no centro de um espaço vazio de seis quilômetros quadrados, pouco impressiona, especialmente quando em comparação com a extensa onda que é Abu Dhabi.

População Projetada: 40.000
Fundação: 2006
Função Prioritária: Ciência e Tecnologia


Rawabi – Cisjordânia (Palestina)
Imagem: https://www.protenders.com/projects/rawabi 

A Autoridade Nacional Palestina não precisa da aprovação de Israel para a construção de Rawabi, pois sua localização está inteiramente dentro da área 'A', um território sob completo controle palestino. O plano diretor de Rawabi e o projeto preliminar foi desenvolvido de modo Multi-disciplinar pela AECOM liderado por Raphael Samach em cooperação com especialistas locais de Birzeit e a Nacional An-Najah, universidades e as equipes técnica. Ele foi aprovado pela a Autoridade Palestiniana e ao Conselho de Planeamento palestiniano Superior

População Projetada: 40.000
Fundação: 2010  
Função Prioritária: Residencial e Comercial


Djibloho - GuinéEquatorial
Imagem: http://www.archdaily.com/
Imagem: http://www.archdaily.com/




Planejada para ser a nova capital do país, Djibloho é sobretudo caracterizada quer pela densa floresta equatorial que a envolve, quer pela forte presença do rio Wele que a atravessa, o conceito na origem do planeamento territorial da nova cidade resulta da fusão do rio – como elemento orgânico, com a retícula ortogonal apresentada pela rede de infraestruturas viárias, atualmente em curso. Embora todo o Plano contemple a multifuncionalidade dos espaços, é constituído por zonas especializadas nas quais determinadas funções ou usos são predominantes. Zona administrativa, Zona Habitacional de Renda Alta, Média e Baixa.

População Projetada: 160 mil
Fundação: 2010
Função Prioritária: Administrativa


New Songdo City – Coréia do Sul

Imagem: http://inhabitat.com/songdo-ibd-south-koreas-new-eco-city/

Uma cidade verde, foi LEED-certificada a partir do get-go, concebido para emitir um terço dos gases de efeito estufa de uma típica metrópole seu tamanho (cerca de 300.000 pessoas durante o dia). É um "distrito de negócios internacionais" e um "aerotrópolis" - uma cidade orientada para o ocidente mais focada no aeroporto e China para além do que em Seul. E é suposto ser uma "cidade inteligente", cravejado com chips de falar um com o outro, designado como tal anos antes IBM encontrou sua religião "Smarter Planet".

População Projetada: 300.000
Fundação: 2001
Função Prioritária: Residencial e Tecnologia


Tianjin Eco-City – China
 
Imagem: http://openbuildings.com/buildings/tianjin-eco-city-profile-4292
Plano Diretor de Tianjin Eco-city explicita os usos aprovados de sua terra. O Plano tenta encontrar um equilíbrio entre necessidades concorrentes, incluindo as necessidades sociais, económicas e ambientais da Eco-cidade. Ele foi desenvolvido em conjunto pela Academia Chinesa de Planejamento Urbano e design, o Tianjin Urbanismo e Design Institute, e a equipe de planejamento de Cingapura liderado pela Autoridade de requalificação urbana. Os princípios de seu planejamento são: Ordenamento do território, planejamento de transportes e planejamento verde (vegetação) e azul (água).

População Projetada: 350.000
Fundação: 2008
Função Prioritária: Residencial e Tecnologia


Lusail City – Qatar
 
Imagem: http://www.qatarliving.com/properties/apartment/advert/lusail-city-sale-rent
A ideia é que a cidade esteja pronta até 2020, dois anos antes de o Catar sediar a Copa do Mundo. Planejada dentro de um terreno de 38km², Lusail terá metrô, 19 bairros, 22 hotéis, marina, vilas de frente para o mar, resorts dentro da Qetafian Island, preparada para ser o centro de turismo, hospitais, 36 escolas, porto, dois campos de golfe, shoppings, centro culturais, centro de energia, torres comerciais e claro, estádios e ginásios. O mais importante deles é o Lusail Iconic Stadium, para mais de 80 mil pessoas e palco da abertura e da final da Copa.

População Projetada: 450.000
Fundação: 2008
Função Prioritária: Negócios e Entretenimento


Naypyidaw – Myanmar
 
Imagem: http://dvbdpdm.com/naypyidaw-dpdm2-18/
A construção de Naypyidaw a nova capital do Myanmar começou em 2002, com a localização central no país. Embora alguns funcionários do governo tenham se mudado para a nova capital no início de 2005, vários funcionários foram separados de suas famílias devido a uma falta de escolas e outras amenidades. Dividido em várias zonas, a cidade mantém os ministérios longe da área militar e há também uma zona comercial designada e hotel, apesar da falta de turismo na região. As áreas residenciais são cuidadosamente organizadas em 1.200 blocos de apartamentos de quatro andares. Os telhados dos edifícios possuem código de cores de acordo com o cargo de seus habitantes, apesar da doação de habitações por parte do governo, muitos ainda moram em favelas no entorno da nova capital. 

População Projetada: 1.000.000
Fundação: 2002
Função prioritária: Administrativa


KAEC ( King Abdullah Economic City) – Arábia Saudita 

Imagem: http://comm.ae
Imagem: https://www.thebig5hub.com

Localizada a cerca de 60 milhas ao norte do principal centro comercial da Arábia Saudita, Jiddah - e construída inteiramente na terra do deserto previamente desocupada - ela vai ter hospitais, escolas e campos de golfe, com projeto da cidade também incluindo um porto capaz de lidar com 20 milhões de contêineres por ano, um complexo industrial, uma ilha financeira, apoio de praia e bairros residenciais. Em grande parte financiada com fundos privados, o governo saudita criou uma Autoridade Econômica especialmente  para ajudar a supervisionar não só a construção da cidade do rei Abdullah, mas também outras três mega-cidades que o rei planeja construir.

População Projetada: 2.000.000
Fundação: 2006
Função Prioritária: Negócios e comércio

sábado, 16 de abril de 2016

Entrevista com o Professor e Arquiteto Oscarito Antunes

O professor arquiteto Oscarito Antunes do Nascimento é um dos pioneiros da arquitetura no Amapá, é amazonense de nascimento, nasceu na cidade de São Paulo de Olivença no interior do Amazonas, filho de militar, passou sua infância na região da tríplice fronteira (Brasil, Colômbia e Peru), região onde localiza-se sua cidade natal, na adolescência mudou-se para Manaus onde fez seu ensino primário, e posteriormente se mudou para Belém a fim de fazer o ensino ginasial e depois entrou na Universidade Federal do Pará, onde graduou-se em arquitetura e urbanismo, ainda em Belém deu aula no renomado Colégio Gentil Bitencourt na capital paraense, possuí mestrado em Desenvolvimento Regional pela Universidade Federal do Amapá, também foi o Primeiro Conselheiro Federal Titular do CAU-AP eleito na primeira eleição do Conselho de Arquitetura e Urbanismo e atualmente ocupa o cargo de conselheiro federal suplente do mesmo.


“Como professor vou ficar até me aposentar, e como arquiteto a gente nunca se aposenta”


Quando ou por que o senhor optou pela arquitetura?

Na verdade, foi no cursinho, pensei primeiro em fazer engenharia eletrônica que em Belém já não era uma novidade, mas aqui sim, mas aí depois optei durante o cursinho para arquitetura, mas de fato minha vocação sempre foi a arquitetura.


Na sua opinião, qual é a importância da arquitetura para a sociedade?

A arquitetura é uma ciência muito importante para a sociedade pois envolve urbanismo, as questões sociológicas, proporciona qualidade de vida, e enfim, está diretamente envolvida com as necessidades do ser humano.

Na sua opinião o que é essencial para realizar um bom projeto?

Primeiramente atender os anseios do cliente, cada cliente ou usuário é diferente, cada projeto é único, e as vezes um cliente lhe contrata, mas você deve pensar no usuário, é o caso das obras públicas, onde é o estado que lhe contrata, mas você deve pensar nos usuários que utilizarão aquele prédio, como uma escola por exemplo, mas o fundamental é o arquiteto buscar atender os anseios do cliente. Mas na discussão é importante conhecer bem, os costumes da família, e adequar o projeto ao cliente, a estética tem que ter, mas o principal é a funcionalidade da residência, como dizia Le Corbusier “a casa é uma máquina de viver”, na cidade é a mesma coisa.

O senhor é um dos arquitetos mais conhecidos e procurados em Macapá. O que o senhor identifica como determinante para receber muitos projetos?

Eu acredito que isso se deve ao pioneirismo, quando eu cheguei em Macapá não se falava em arquitetura, era um fator digamos assim ainda desconhecido na cidade, então aos poucos, a gente foi implantando uma batalha de implantação de projetos institucionais, e eu acho que fui um dos primeiros arquitetos que entrar na linha de edifícios institucionais, para o governo, não se tinha ainda uma clientela particular ainda, e meu nome começou a aparecer, ai claro depois vieram outros arquitetos e a partir do curso de arquitetura isso é claro já ampliou o leque, mas isso se deve principalmente ao pioneirismo.

Na sua opinião os arquitetos locais deveriam explorar melhor a regionalidade, com projetos mais adequados ao nosso clima?

Isso aí é uma questão fundamental, a arquitetura regional, mas nem sempre esse regionalismo é muito bem-vindo, mas não podemos nos esquecer das técnicas contemporâneas, o que eu chamo de um regionalismo critico, adotando conceitos, que na arquitetura sempre deve ser observada as relações climáticas, os materiais regionais, mas nunca devemos nos alienar das técnicas modernas, é uma questão de fazer uma simbiose entre as técnicas contemporâneas aliado a uma ecologia amazônica, tem que aliar as duas coisas, e a questão da sustentabilidade que hoje está em alta.


O senhor se considera realizado profissionalmente?

Agora eu estou querendo fazer um fechamento da minha atividade a nível regional, na área de urbanismo, por que eu trabalhei muito com o prédio, o projeto, e é claro que sempre se leva em consideração o entorno, mas agora eu tô querendo me preocupar com a questão do urbanismo, a questão do saneamento da Amazônia, as populações ribeirinhas, a questão da qualidade de vida na Amazônia que tem um potencial muito grande que não é aproveitado, muitas cidades do interior, aqui mesmo do Amapá, que são dezesseis municípios, todos com um potencial turístico muito grande, que não é aproveitado, eu tenho um fascínio muito grande pelas comunidades ribeirinhas, e também no caso do Amapá os municípios ao longo da BR (156).

Se pudesse dar um conselho aos novos arquitetos e estudantes de arquitetura, mais especificamente do curso de arquitetura da Unifap, qual seria?

Bom, eu acredito que nós estamos na fase da pesquisa e da inovação, ter ideias inovadoras dentro do projeto, ter conhecimento das técnicas modernas, pensar na eficiência do prédio, aliar o moderno com o regional, mas principalmente fazer pesquisa, se informar das novas tecnologias, por que hoje não podemos fugir delas.

Quais dos projetos que o senhor já realizou que na sua opinião foi o mais desafiador?

Pela magnitude, sem dúvida foi o Estádio Zerão, que nós fizemos com parceria com mais dois colegas: Shikarito e Homobono, ele (Zerão) não foi todo construído, apenas um terço do que foi projetado foi executado, mas tem outros na área educacional que eu gosto muito, vários protótipos escolares, tanto de primeira a oitava (Série) como de formação, o centro de processamento de dados, o prédio da prefeitura e da praça da bandeira, na Praça da Bandeira projetei aquelas marquises, aquele parlatório e pira olímpica que até hoje se mantém lá, é um projeto que gosto bastante.

Sobre a Prefeitura, me fale um pouco sobre o projeto, quem era o prefeito á época e como era o contexto da prefeitura naquele tempo.

Aquilo era um caixão, eu e o Brito, nós éramos funcionários da prefeitura, então nos encarregaram do projeto de reforma, então colocamos aqueles pilares, com telhas Brasilit que era muito usado na época e de modo que demos uma outra roupagem, que melhorou muito em relação ao que era antes, o prefeito na época era Cleito Figueiredo, o prefeito mais empreendedor que Macapá já teve até hoje, formou uma equipe técnica de qualidade e se cercou de bons profissionais, de modo que esses projetos foram todos feitos na época dele, naquela época a prefeitura tinha mais verba, ainda era território federal e estávamos ligados ao ministério do interior, naquela época prefeito e governador eram nomeados, não havia eleição, nós fizemos muitos projetos como técnicos dentro da prefeitura, ainda neste tempo, houve um grande incêndio no centro comercial de Macapá, na região da Rua Cândido Mendes que destruiu muitas lojas, então eu e outro colega a pedido do prefeito tivemos que rapidamente projetar a reconstrução daquela região ali.

Existe algum projeto que o senhor realizou que se fosse hoje, faria de modo diferente?

Os projetos são feitos de acordo com sua época, a arquitetura é muito dinâmica, a cidade oferece essas mudanças, cada projeto tem seu tempo, a realidade da época era diferente então todo projeto se fosse feito hoje seria diferente, a arquitetura é muito relacionada a cidade.

Fale-me um pouco sobre o CAU (Conselho de Arquitetura e Urbanismo). Dizem que o senhor tem um dos primeiros registros no número do Cau-AP.

No Cau eu fui Conselheiro Federal nos primeiros três anos, depois do nosso desmembramento do Crea, agora estou como suplente, Cau e Crea foi uma luta de quase quarenta anos, foi uma luta de várias entidades que se uniram pra fazer essa separação, o Crea é uma coisa gigantesca com mais de quarenta categorias, foi uma saída um pouco traumática, o Crea perdeu receita, mas nós tivemos uma saída muito honrosa, ainda tem a briga do sombreamento (competências de engenheiros e arquitetos que se entrelaçam), mas os arquitetos podem fazer cálculos estruturais e diversas outras coisas com muita competência, inclusive aqui em Macapá existem várias empresa que chamam de “engenheiro responsável” os arquitetos que são os responsáveis técnicos da obra. Quanto ao número do cau o Niemeyer é o 001, quando saímos do Crea mudou o sistema de registros e ele foi feito a nível nacional, são mais de cem mil arquitetos hoje e eu devo ser lá por volta do número mil, mas o cau é um registro nacional.

Entrevista concedida em 27/08/2015

domingo, 27 de dezembro de 2015

MACAPÁ A CAPITAL MENOS SEGREGADA DO BRASIL, MAS NÃO HÁ O QUE COMEMORAR

Segundo um estudo recente publicado pelo jornal virtual Nexo e elaborado pelos pesquisadores Daniel Mariani, Murilo Roncolato, Simon Ducroquet e Ariel Tonglet revelou o mapa da segregação racial e sócio espacial no tecido urbano das cidades brasileiras, o Mapa Racial do Brasil. Também foi elaborado um ranking entre as capitais brasileiras para medir o nível de dissimilaridade (segregação) entre elas, apresentando Porto Alegre - RS como sendo a capital com maior nível e Macapá – AP com o menor nível de dissimilaridade. Acompanhe os dados abaixo:

Mapa Racial do Brasil

Vemos claramente dois brasis, um ao sul majoritariamente branco e outro ao norte majoritariamente pardo.


Mapa Racial: Rio de Janeiro, Brasília e Salvador

Salvador


Rio de Janeiro

Brasília


Mapa Racial de Macapá
Mapa Racial da Região Metropolitana de Macapá 2015

 
No mapa aparece a Região Metropolitana de Macapá (Macapá e Santana), podemos observar a predominância esmagadora da população parda em Macapá, bem como não conseguimos observar grandes diferenças de distribuição sócio espacial entre os diferentes grupos étnicos no tecido urbano da capital Macapaense, no geral as capitais da Região Norte apresentaram os menores índices de segregação entre todas as capitais brasileiras.  

Ranking da segregação nas capitais brasileiras

Ainda que os índices de segregação de Macapá possam parecer animadores não demostram necessariamente uma boa distribuição de renda, ou um menor nível de desigualdades entre brancos, pardos e negros, apenas mostra que eles dividem o mesmo território, o que não significa que eles necessariamente se misturem, a segregação por renda ainda se faz presente, podemos estar observando populações brancas e pardas de maior renda coexistindo juntas nas regiões mais valorizadas da cidade em oposição a populações pardas e brancas de menor renda coexistindo juntas nas regiões periféricas. Empiricamente também é possível notar claramente que existem grandes desníveis econômicos entre populações de um mesmo bairro, e de uma mesma rua em praticamente todos os bairros de Macapá, onde populações de classe alta moram literalmente ao lado de populações de baixa renda, também é impossível falar de contexto urbano Macapaense sem falar das populações habitando as áreas de ressacas* o que mostra que a dissimilaridade macapaense seja talvez um pouco mais complexa do que no restante do país.
Desigualdade entre vizinhos -
Região central de Macapá
(Imagem: Google Stret View)

Desigualdade entre vizinhos -  
Região central de Macapá
(Imagem: Google Stret View)




Embora os níveis de desigualdade em Macapá sejam relativamente baixos hoje nada garante que continuarão sendo num futuro próximo, uma vez que a capital macapaense em seu intenso processo de expansão urbana vem reproduzindo cada vez mais a dinâmica urbana já consolidada nos grandes centros do país, onde a elite se enclausura em condomínios fechados de alto padrão e enquanto que o mercado e os programas habitacionais empurram as populações de baixa renda para regiões cada vez mais periféricas, em Macapá já é visível este processo onde se proliferam os condomínios de luxo ao longo da Rodovia Juscelino Kubitschek na Zona Sul e a população mais pobre é empurrada para outro extremo da cidade na Zona Norte, seja pelo mercado ou pelo Minha Casa Minha Vida (Exemplo o Complexo Cid. Macapaba).

Existe saída?
Assim, o que especialistas sugerem é a criação de políticas públicas que regulem melhor o mercado mobiliário e seu papel sobre a ocupação das cidades, a melhoria das condições de transporte entre periferias e centro, a descentralização dos ambientes de trabalho (como regiões de alta concentração comercial), além da criação de políticas afirmativas que permitam a integração de grupos de raça ou cor e condições sociais diversas.



Sobre o ranking: O ranking foi montado a partir do índice demográfico de dissimilaridade, de 0 a 100, utilizado para comparar a presença de dois grupos distribuídos em pequenas áreas (regiões censitárias) em relação à composição total da cidade. Imaginemos uma cidade que possui 10 setores censitários e é composta por 90% brancos e 10% negros. O índice será 100 se todos os negros estiverem concentrados em apenas um setor e todos os brancos nos demais; e será 0 (zero) se todos os setores censitários tiverem a mesma composição da cidade (no caso, 90% brancos e 10% negros).
Sobre o Mapa: A cada censo o IBGE reúne as informações da população no menor conjunto amostral, o setor censitário, que tem tamanho variado de acordo com a densidade populacional local. O mapa que você vê acima foi montado adicionando-se dentro dos blocos aleatoriamente pontos que representam cada uma das pessoas residentes no local e colorindo-os de forma equivalente à proporção de raça/cor autodeclarada (preto, pardo, branco, amarelo ou indígena) no bloco. Alguns pontos se encontram dentro de parques ou em águas pois as delimitação dos setores censitários muitas vezes incluem essas regiões. Para executar essa tarefa se adaptou o código aberto desenvolvido por Dustin Cable no Grupo de Pesquisa Demográfica da Universidade de Virginia, nos Estados Unidos, que produziu o mesmo projeto para a população americana (mais informações aqui).

*Áreas de ressacas: Linguagem regional amapaense para descrever áreas úmidas e alagadiças que circundam as cidades de Macapá e Santana e estão sujeitas as águas de maré do Rio Amazonas. 

Referências:

sábado, 28 de novembro de 2015

MOBILIDADE URBANA E DESIGUALDADE SOCIAL

Foto: httpviatrolebus.com.br 
A sociedade brasileira é excludente e desigual, isso é praticamente consenso entre todos os brasileiros que tem o mínimo de sensibilidade, e a desigualdade se verifica das mais diversas maneiras, seja na diferença salarial entre homens e mulheres, brancos e negros, seja no nível de escolaridade enfim a desigualdade pode ser evidenciada de diversas maneiras, porém o que poucos debatem, mesmo entre os setores mais progressistas, é a desigualdade social em se tratando de mobilidade urbana, o que é fundamental de ser analisado se queremos uma sociedade mais justa, a mobilidade urbana é um elemento vital que pode criar um abismo entre a qualidade de vida daqueles que podem e os que não podem se deslocar adequadamente pela cidade.

Uma cidade só existe para quem por ela pode se movimentar, porém segundo a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos – ANTU, mais de 37 Milhões de brasileiros não tem dinheiro para pagar as tarifas regularmente, e para uma família com renda média mensal de um salário mínimo, o gasto com transporte mesmo com meia passagem chega a 33% do orçamento familiar segundo o Movimento tarifa zero de São Paulo, ou seja, a mobilidade urbana em nossas cidades é tão desigual quanto nossa sociedade, circula quem tem condições de circular, quem não tem fica imóvel, e é justamente o que acontece com uma parcela significativa dos brasileiros, infelizmente a mobilidade urbana foi transformada em mercadoria, o que não podemos permitir visto que a mobilidade é o direito que garante o acesso a todos os outros direitos.

Uso de transporte individual e coletivo por renda familiar 
(fonte: Pesquisa de Mobilidade Urbana/ Metrô, 2012)
Como se não bastasse esse quadro já alarmante, os governos, os lobbies do transporte público e os diversos agentes modeladores do espaço urbano continuam perpetuando a lógica do urbanismo rodoviarista, onde para cada 1 (Um) Real investido em Transporte público os governos gastam em média, outros 12 (Doze) reais em obras e infraestrutura de incentivo a carros e motos, sendo que mais de 70% das movimentações dentro das cidades, em geral são feitas por transportes públicos e não por automóveis particulares. Toda a concepção atual de transporte público está organizada para garantir o maior lucro possível aos empresários, mais gente dentro do mínimo de ônibus possível, logo menor custo com manutenção e funcionários igual a maior lucratividade, e o próprio trajeto das rotas de ônibus se limitam a lógica Centro-Periferia, ou seja, Escola/Trabalho – Casa, como se a população tivesse como único direito exclusivo trabalhar ou estudar e voltar para casa, e o pior maior parte dos equipamentos culturais encontra-se em bairros centrais ou considerados nobres ou então em bairros ultra periféricos de difícil acesso.


Outra questão que pouco se debate é o tempo de deslocamento, e a distância do local de trabalho/estudo para o local de moradia, segundo a pesquisa de Mobilidade Urbana do Metrô de São Paulo de 2012, quanto maior a renda familiar mais se usa o transporte particular e menor o tempo de deslocamento, e ao contrário quanto menor a renda familiar maior o uso de transporte público e maior será o tempo de deslocamento. E quanto a distância entre local de trabalho e local de moradia? Este também é um tema que poucos estão dispostos a debater. Nas últimas cinco décadas assistimos ao crescimento colossal da população das cidades brasileiras, porém devido a nossa urbanização dispersa e horizontal os subúrbios tornaram-se densamente habitados em detrimento das regiões centrais praticamente desabitadas no período noturno, enquanto que a lógica deveria ser inversa, as regiões centrais deveriam ser densamente habitadas predominantemente por populações de menor renda e as áreas suburbanas  deveriam abrigar a população de maior renda, uma vez que estes tem melhores condições de se deslocarem. Um exemplo de como o próprio estado favorece esta desigualdade é quando este instala os grandes projetos habitacionais do Minha Casa Minha Vida em regiões ultra periféricas onde os terrenos são mais baratos porém a mobilidade urbana é precária. 

O metrô de São Paulo transporta diariamente 3 milhões de pessoas
 (População do Uruguai)  no sentido Zona Leste - Centro - Zona Leste.    Foto: qga.com.br
Como todos os problemas urbanos, a questão da mobilidade urbana implica em formulação de políticas de longo prazo e que enfrentem interesses, sobretudo do mercado imobiliário que hoje é o maior empecilho das boas políticas urbanas, da boa arquitetura e da urbanidade de um modo geral. Propostas como a da tarifa zero, a desapropriação de prédios abandonados e terrenos baldios para fins de implantação de habitação de interesse social, bem como massivos investimentos em transportes coletivos e alternativos podem ser algumas das saídas para melhorarmos as cidades brasileiras, porém mesmo que estas políticas começassem hoje com grande pressão e organização da sociedade civil organizada, ainda sim os resultados práticos começariam a ser sentidos somente longo prazo, o que mostra a urgência de darmos a devida seriedade ao tema da mobilidade urbana ainda hoje. 

Referências:

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Afinal, onde começa a Zona Norte de Macapá?

Rod. Tancredo Neves - Zona Norte de Macapá
Um dos assuntos mais debatidos entre os moradores de Macapá, é quanto ao que na área do urbanismo chamamos de macrozoneamento urbano, mais precisamente onde começam e onde terminam os limites das zonas urbanas de Macapá, bem ou mal, esse assunto já entrou em pauta em qualquer roda de conversa sobre o cotidiano urbano macapaense. Primeiramente é necessário dizer que o zoneamento urbano de Macapá não é consenso nem entre os entes públicos, esta divisão da cidade em zonas iniciou-se recentemente na última década, e massificado pela mídia local, que também criou seus próprios critérios de zoneamento urbano, igualmente confuso e impreciso. 

Afinal, onde começa a Zona Norte de Macapá? Para alguns ao norte da Av. Fab, para outros nos limites do bairro Pacoval, porém para outros ela só começa depois da Ponte Sérgio Arruda, como solucionar este mistério da urbanidade macapaense? Onde começa a Zona Norte e as demais zonas da cidade? Um ponto de partida para esta discussão é o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental de Macapá de 2004, que em seu terceiro capitulo discorre sobre o que ele chama das Unidades de Gestão que estabelece os limites dos distritos, dentre eles o distrito sede Macapá que por sua vez é subdividido em três unidades urbanas ou subzonas dentro do seu limite urbano legal sendo elas:


Macrozoneamento urbano de Macapá - Plano Diretor de 2004


I Macapá Sudoeste: Muca, Jardim Equatorial, Congós, Novo Buritizal, Alvorada, Buritis, Lagoa, Cajari, Cabralzinho, Platon, Goiabal, Jardim Marco Zero, Pedrinhas, Araxá, Zerão e Universidade e demais áreas localizadas a sudoeste dos limites urbanos da capital. 
II Macapá Centro: Santa Inês, Beirol, Buritizal, Trem, Nova Esperança, Santa Rita, Centro, Laguinho, Perpétuo Socorro, Cidade Nova, Pacoval, Jesus de Nazaré e parte da área do aeroporto internacional de Macapá.
III Macapá Norte: Pantanal, Renascer I e II, Infraero I e II, São Lázaro, Novo Horizonte, Jardim Felicidade I e II, Sol Nascente, Alencar, Boné Azul, Liberdade, Brasil Novo e demais áreas contidas nos limites norte da zona urbana de Macapá.


Como podemos observar no mapa oficial do Plano Diretor, a Zona Norte começa oficialmente depois da ponte Sérgio Arruda, porém esta subdivisão da cidade por ter sido feita há mais de uma década, apresenta algumas características que não se aplicam a cidade atual, como por exemplo o caso da Zona Sudoeste que engloba desde bairros como Marabaixo até o Universidade, são regiões completamente distintas da cidade e sem conexão física direta uma com a outra, bem como a zona central que apresenta bairros e áreas que não podem ser inseridos em uma área que poderíamos classificar como central. Partindo do pressuposto que as unidades de gestão urbana existentes no atual plano diretor não contemplam mais a realidade da urbanidade macapaense então fica aqui a proposta, apenas uma proposta, de um novo macrozoneamento urbano dividido em quatro zonas urbanas; Central, Norte, Sul e Oeste. Agrupadas segundo uma perspectiva de características geográficas e sócio econômicas semelhantes, levando em conta a percepção particular deste autor: 

Macrozoneamento urbano proposto
        
Zona Central: Centro, Laguinho, Trem, Santa Rita, Jesus de Nazaré e Perpétuo Socorro.
Zona Sul: Buritizal, Beirol, Santa Inês, Araxá, Novo Buritizal, Congós, Pedrinhas, Jardim Marco Zero, Jardim Equatorial, Muca, Universidade, Vale Verde, Cuba de Asfalto, Chefe Clodoaldo, Alfaville, Fazendinha, Zerão e todas as demais áreas nos limites sul da zona urbana de Macapá.
Zona Oeste: Alvorada, Nova Esperança, Cabralzinho, Irmãos Platon, Marabaixo I, II, III e IV, Goibal, Jardim América, Jardim Europa, Coração e todas as demais áreas ao oeste dos limites da zona urbana de Macapá. 
Zona Norte: Pacoval, Cidade Nova, São Lázaro, Renascer I e II, Infraero I e II, Jardim Felicidade I e II, Novo Horizonte, Sol Nascente, Alencar, Boné Azul, Açaí, Parque dos Buritis, Morada das Palmeiras, Brasil novo, Liberdade, Macapaba, Amazonas e todas as demais áreas nos limites norte da zona urbana de Macapá.


Referências


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Monumento Marco Zero: Um ponto turístico estéril e hostil ao visitante.


Vista traseira do Monumento Marco Zero e entorno
Imagem via: Site Visiteobrasil.com - Foto: Jorge Andrade
Se analisarmos profundamente veremos que o Monumento Marco Zero é um ponto turístico hostil ao visitante, primeiro por estar em uma rotatória no meio da Rodovia Juscelino Kubitschek, sem faixa para os pedestres que precisam acessá-lo, e são obrigados a atravessar em meio a um trafego intenso e onde os veículos circulam em alta velocidade, um perigo e tanto. Ciclistas e motoristas que acessam o local também precisam de atenção redobrada, um segundo fator é o simples fato de não existir nenhum suporte para que o visitante permaneça mais de trinta minutos no lugar, o que contribui para que ele esteja distante do cotidiano da população macapaense e seja frequentado quase que exclusivamente por turistas o ano inteiro. Quando analisamos seu entorno a situação é ainda menos atrativa, um grande descampado estéril, poeirento no verão e lamacento no inverno, utilizado como estacionamento improvisado ou para festas privadas em sua maioria, que em nada contribuem para valorizar o lugar e que pouco ou nada trazem aos cofres públicos.

A solução óbvia para aquela área seria a implantação de um parque urbano, pois além de levar verde, saúde e bem-estar para aquela região da cidade, serviria também para promover atividades físicas, eventos esportivos e culturais, além de valorizar e muito o seu entorno. Porém tão importante quanto a construção do parque, seria a integração do Monumento Marco Zero a este complexo. Estratégias projetuais simples e outras relativamente dispendiosas podem tira-lo do isolamento, tais como a redefinição do sistema viário local e a inclusão do Marco Zero ao parque, reforma e redefinição de uso para o sambódromo em estado de abandono, entre outras. Para que isto se torne realidade é necessário visão estratégica e planejamento, e nada melhor do que a realização de um concurso de projeto, algo muito utilizado no centro-sul, e mais recentemente em Belém para escolha do novo parque do aeroclube, mas até hoje é um mecanismo inédito e talvez até desconhecido pelos agentes públicos amapaenses. 


Monumento Marco Zero e entorno
    Fonte: Google Earth, 2017
À primeira vista a implantação de um parque pode parecer para alguns algo supérfluo e secundário, diante do caos urbano e social que vivem as cidades brasileiras na atualidade, onde há falta investimentos na saúde, na educação, na segurança etc. Porém na realidade quando observamos os benefícios sociais, físicos e psíquicos resultantes da implantação de um bom projeto de parque público, verificamos que este melhora as relações sociais, incentiva a prática de exercícios físicos e atividades culturais, aumenta a autoestima da população e como bônus contribui para amenizar o calor. Contudo mesmo com todas as adversidades atuais, no fim de tarde ou início da manhã, é possível ver inúmeros moradores dos bairros em volta utilizando a área para fazer suas caminhadas e outras atividades físicas. 

Em Macapá quem não se lembra da euforia, quando foi inaugurado o primeiro parque urbano da cidade? O Parque do Forte, que de tão agradável e bem projetado popularmente ficou conhecido como “lugar bonito”, hoje, mesmo diante do relativo estado de abandono e má conservação ele ainda continua sendo um dos principais locais de passeio público dos macapaenses, ponto de encontros, de caminhadas e de infindáveis eventos culturais, a implantação do parque valorizou o principal cartão postal do estado, a Fortaleza de São José, mas e quanto ao segundo mais importante cartão postal, o Monumento Marco Zero? Local onde passa a linha do Equador e que divide o mundo em dois hemisférios? Ao que parece, até hoje não tem recebido a devida atenção. 

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O urbanicídio do Parque do Forte


Mas o que é Urbanicídio? O conceito de urbanidade tem sido muito debatido entre os estudiosos do urbanismo, esta ciência social aplicada, que por convenção define urbanidade como sendo; muitas pessoas usando os espaços públicos, em diversidade de perfis sociais utilizando estes mesmos espaços, com uma alta interação entre os espaços abertos e fechados, proporcionando grande integração entre pessoas e uma satisfatória diversidade de transportes para o deslocamento desta população. Em suma, urbanidade são todos os aspectos que compõe a vivência nas cidades, bem como a qualidade desta interação e isto perpassa inevitavelmente pela qualidade dos espaços públicos como Praças, Parques e Paços. Com isso podemos dizer que o antônimo de urbanidade é urbanicídio, a tentativa de destruição dos espaços públicos, dificultando o convívio da população.

Os grandes parques públicos urbanos aparecem, tal como conhecemos hoje no século XVII quando as maiores cidades da Europa chegaram a uma situação crítica de insalubridade. As populações urbanas, das cidades já poluídas e caóticas passaram a enxergar no campo um local oposto a tudo isso, um espaço higiênico, de ar fresco e de tranquilidade. Assim surgem os primeiros parques públicos, com isso surge a preocupação com a preservação das áreas verdes, bem como da qualidade de vida no meio urbano. Entretanto para além de tudo isso, os parques como espaços públicos, tem papel vital para a interação, a promoção da cultura, do esporte, do lazer e do convívio social, das pequenas cidades as grandes metrópoles.

Parque do Forte - 2006









Em 20 de Junho de 2006 Macapá ganha seu primeiro parque urbano, projetado pela renomada arquiteta paisagista Rosa Kliass, o projeto transformou uma área degradada e subutilizada em torno do principal cartão postal do Amapá, a Fortaleza de São José de Macapá. A população macapaense carente de um grande espaço público adotou rapidamente este parque e o passou a chama-lo de “lugar bonito”. Desde que os tapumes foram derrubados e o parque inaugurado as 17:00 h daquele dia a população nunca mais o abandonou, entretanto, ao que parece o poder público no últimos anos, ilogicamente vem tentando sucatear o principal cartão postal do estado. Aquele local que um dia foi motivo de orgulho amapaense virou um local violento, escuro e esquecido pelo governo. Porém a população resiste a perda de seu maior espaço público e mesmo com esta política de abandono continua frequentando o parque, onde ainda é possível encontrar casais namorando, pessoas correndo, famílias passeando e crianças brincando. O urbanicídio do Parque do Forte ainda não foi bem sucedido, só não sabemos por quanto tempo mais a resistente população macapaense vai aguentar.

Parque do Forte - 2014









Referências:

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Pavimentação como obra eleitoreira

Em pleno período de eleição Governo do Amapá e
Prefeitura de Macapá lançam um programa de pavimentação.
Fonte: http://g1.globo.com/ap/amapa/noticia...em-macapa.html

A pavimentação de ruas é a obra mais comum no Brasil durante o período eleitoral, primeiro por que a população desconhece os critérios técnicos e obras preliminares que devem anteceder o asfalto, tais como construção de galerias pluviais, canaletas e meio fio que evitariam que o asfalto se desgastasse e aumentaria sua durabilidade. Segundo que esta pavimentação eleitoral, além de muito mais rápida e barata do que a construção de uma escola ou um posto de saúde, por exemplo, traz ganhos políticos imediatos para os políticos que se utilizam desta artimanha, ainda que claramente eleitoreira, impacta os moradores que a anos clamam e esperam do poder público a pavimentação da sua rua.

Porém o  maior problema dessa pavimentação, no mínimo duvidosa, que visa o voto em detrimento dos critérios técnicos e do respeito pelo dinheiro público, é que quando este tipo de pavimentação é realizada, embora o custo x beneficio seja vantajoso para os maus políticos, esta acaba sendo muito mais cara e dispendiosa para toda sociedade, uma vez que no futuro será necessário remover boa parte deste asfalto pra implantação de obras de água, esgoto e drenagem, ou pior, quando essas obras não chegam, e a cidade vai se adensando e se urbanizando, o solo vai sendo impermeabilizado, aumentando inclusive a velocidade de vasão da água da chuva que depois se acumula, fazendo com que a probabilidade de alagamentos cresça exponencialmente, em Macapá já começamos a ver o inicio deste processo. 

Na realidade amapaense ainda tem um outro agravante, o inverno, ou período "invernoso", como gostam de falar as autoridades locais, é usado como desculpa para tudo, desde os serviços mais básicos como limpeza e manutenção urbana até a pavimentação. Geralmente o que tem sido feito pelas sucessivas gestões é a famosa "operação tapa-buraco" (Deveria ser chamada de Operação tapar o Sol com a peneira), supostamente como medida emergencial até a chegada do verão. O que geralmente termina em mais do mesmo: O verão chega, e inicia-se a pavimentação de péssima qualidade, com ganhos eleitorais temporários e após alguns anos (as vezes meses), a péssima pavimentação se desfaz, junto com dinheiro público que escoa junto, e a rua só ganha outra camada no próximo período eleitoral, ou seja, um verdadeiro looping temporal da pavimentação eleitoral.

Solução?
Primeiramente seria o poder público tratar o dinheiro do contribuinte e a população com seriedade, executando estudos e obras de infraestrutura preliminares antes da pavimentação propriamente dita, segundo seria melhorar a composição do asfalto utilizado (coisa que já foi prometida em campanhas anteriores), e por fim, não podendo executar todas essas obras, que se executem formas de pavimentação alternativas, como por exemplo bloquetes, embora existam diversas outras.


Leia também:
http://campus.fac.unb.br/cidade/item/3144-obras-realizadas-com-fins-eleitoreiros
http://www.jesocarneiro.com.br/cidade/alternativa-de-pavimentacao-em-bloquetes.html
https://www.idd.edu.br/blog/idd-news/pavimentacao-em-concreto-armado-a-alternativa-para-vias-urbanas
http://www.portaldetecnologia.com.br/tags/pavimentos-de-baixo-custo-para-vias-urbanas/



terça-feira, 1 de julho de 2014

O Largo dos Inocentes e a tentativa de higienização social

Largo dos Inocentes, "Formigueiro"
Foto: http://casteloroger.blogspot.com.br/

O higienismo social é uma ideologia que surge no final do século XIX, que consiste a grosso modo em limpar, higienizar a cidade de tudo aquilo que a enfeia, na prática consistiu em uma política de remoção da pobreza, de mendigos, usuários de drogas entre outras “personas non gratas” da vista da população, em outras palavras, uma tentativa de esconder a “sujeira” de nossa sociedade para debaixo do tapete. Hoje quase 150 anos depois ela ainda é usada por quase todos os gestores públicos, bem como é um pensamento elitista que entranha todas as camadas sociais. Um caso de notório e bem atual é a política de higienização do centro de São Paulo empreendida pelos governos do PSDB e PT, na região da Cracolândia. Uma tentativa fracassada de tentar limpar o centro de São Paulo que só fez espalhar o problema por todo o centro da cidade, outro caso mais extremo é a chacina da Candelária onde acredita-se até hoje que os comerciantes da região da Cinelândia no Rio, pagaram um grupo de extermínio para “limpar” a área de mendigos e meninos de rua.

O Largo dos Inocentes, também conhecido como Formigueiro, ou ainda apenas “Fórmis” pelos mais jovens, é o berço histórico da cidade de Macapá, foi lá que viveu Mãe Luzia, histórica parteira que hoje dá nome a única maternidade do estado, lá existia o antigo pensionato São José (Hoje parte do Vila Nova Shopping), lá existiu o Cine Paraíso um dos primeiros cinemas do Amapá (Reaberto por algum tempo e hoje vendido ao Shopping), é lá que fica a Igreja de São José, a edificação mais antiga da cidade e um dos poucos monumentos que faz referência aos mais de 250 anos da capital, assim como é lá que está a última casa colonial de Macapá (Que irá se tornar um espaço cultural), e sem falar que lá também está o famoso Bar da Dona Beth. A região do Formigueiro é também um centro para diversas manifestações culturais e ponto de encontro de diversas “tribos” urbanas macapaenses, que vão desde os pioneiros, até os heavy metal, passando pela comunidade LGBT.


Recentemente uma organização que tradicionalmente realiza eventos no largo, revoltou frequentadores e não frequentadores do lugar, ao declarar que o Formigueiro é um antro de “viciados” e “vândalos”, e que as árvores que existem lá atraem “desocupados”, e em uma clara tentativa de higienizar o lugar pediu a prefeitura de Macapá que cortasse todas as árvores e destruíssem todos os bancos (E os vândalos são os frequentadores né?!), o que sugere que além de querer higienizar socialmente a área, a organização ainda demonstra atitudes que lembra e muito uma privatização do espaço público.  A referida organização ignora o fato de que aquela área é pública, de que Macapá mesmo sendo uma cidade amazônica é extremamente mal arborizada e precisa de árvores, e que aquela área serve de ponto de encontro de diversas tribos. É lamentável que discursos como estes ainda existam e se propaguem em pleno século XXI, é como querer aleijar a cidade de um dos poucos espaços de convívio social que ainda temos. A prefeitura deveria intervir sim na região, porém não para descaracterizá-la e sim para revitalizá-la e potencializar as atividades culturais que ali existem e transformá-la em um corredor cultural para todas as tribos, todas as idades e, sobretudo para todos, afinal, aquele é um espaço público de uso comum e assim deve permanecer.